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Os professores perderam o quê?

Muitas ideias que circulam no campo da Educação são difusos lugares comuns (locus communis): fórmulas amplamente aceitas, repetidas com facilidade e que acabam por substituir o próprio esforço de investigação. Atualmente, um desses lugares comuns é a ideia de que, diante da vertiginosa tecnologia digital os alunos podem obter conteúdos diretamente, e portanto “os professores perderam o monopólio do conhecimento”. Tenho visto essa ideia com frequência em artigos de opinião, entrevistas e palestras. Soa perspicaz, inteligente e crítico. Porém, bem examinado, mais confunde do que esclarece.

Afirmar que o professor “perdeu” algo é por que, em algum momento, ele o possuía. Mas quando, exatamente, o professor teve esse monopólio do conhecimento? Na Antiguidade grega, o conhecimento circulava entre tradições orais, escolas filosóficas e mestres que se reconheciam como inseridos em tradições intelectuais. Na Idade Média, mais ainda, a figura do mestre assumia um papel forte na tradição que o precedia e o ultrapassava, o conhecimento do professor operava sobre autoridades e heranças passadas recebidas – basta examinar o que foi a Escolástica.

A coisa toda muda no contexto da escolaridade obrigatória moderna, quando o conhecimento se tornou currículo, o tempo virou séries e classes, e a aprendizagem se traduziu em percurso obrigatório. A expansão do ensino em massa, a partir do século XIX, exigiu soluções organizacionais justamente porque não se tratava de um mestre isolado transmitindo pessoalmente todo o saber, mas de um sistema escolar em crescimento acelerado, com necessidade de método, escala e administração. Nesse contexto, o professor não passou a ter um “monopólio do conhecimento”, o que ocorreu foi precisamente outra coisa: ele ganhou centralidade institucional na transmissão de um saber escolarmente legítimo. A escolaridade moderna não deu ao professor um monopólio do conhecimento, deu-lhe uma posição privilegiada dentro da administração pedagógica de um conhecimento socialmente validado. O professor se tornou menos “dono do saber” do que um agente qualificado da sua seleção, organização, tradução didática e avaliação.

Isso explica por que a retórica atual do “fim do monopólio do conhecimento” erra o alvo: ela imagina que o professor era a única fonte do saber quando, historicamente, ele era antes o principal mediador institucional do saber. Possivelmente muito desse lugar comum se explica pela antiga retórica reformista que, na ânsia de promover as novidades, fazem uma caricatura da chamada pedagogia tradicional, atribuindo a ela todos defeitos que as novidades haverão de resolver. Mas isso já é tema para outro ensaio.

O que as tecnologias digitais abalam, portanto, não é um monopólio que nunca existiu, mas a exclusividade relativa da escola como principal instância de acesso, triagem e legitimação da informação. A discussão que importa não é tanto sobre o papel atual do professor, mas o deslocamento de sua função.

Talvez seja mais honesto sair do lugar comum e reformular a questão. O professor não perdeu nenhum monopólio que nunca teve. O que mudou foram as condições de acesso à informação. A questão a ser resolvida ainda é perene: quem, e de que maneira, ajudará os estudantes a transformar informação em compreensão significativa, e experiência em conhecimento? Se essa função desaparecer, não será porque foi superada, mas porque foi mal compreendida, como um lugar comum.

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